Lautrec e a arte do mundo flutuante

por Beatriz Outis

Toulouse-Lautrec é conhecido pelos desenhos de traços soltos e firmes e pelas cores fortes com que retratava cenas do submundo de Paris, lugar por onde circulava à vontade. Era outra dimensão: várias pessoas socialmente desimportantes; outras, de hábitos noturnos; tipos que saíam em busca de prazer ou de fuga, porque bem sabemos que às vezes não dá para levar a vida de cara limpa e nada melhor do que uma boa dose de absinto e uma apresentação de cancan, não é mesmo? Bem sabemos, Lautrec.

E era isso que ele desenhava: o desencanto, a efemeridade daqueles momentos de prazer. Lautrec não se preocupava em retratar uma beleza idealizada: com ele era o real. Em suas obras, aparecem, por vezes, rostos feios, mais bizarros do que belos. Não que ele buscasse o grotesco: o feio já estava lá, e era o que Lautrec mostrava. Ouso pensar que essa aproximação do submundo, do que é real – e, também por isso, bizarro – era uma catarse, uma resposta à sociedade que o tinha como motivo de chacota pela sua aparência: uma deficiência e dois acidentes que sofreu, entre outras coisas, o tornavam desagradável à vista.

Ele tinha livre acesso aos bastidores da vida das prostitutas – por ser habituée deles – e as observava em atividades corriqueiras: enquanto descansavam, penteavam os cabelos, vestiam-se para trabalhar, papeavam. Também capturava seu estado de espírito: em algumas pinturas, vê-se que o olhar das mulheres está perdido, como se elas estivessem pensando na vida – o próximo cliente, o show que terminou, os boletos a pagar.

Corta para aproximadamente cem anos antes, em Edo – atual Tóquio. Um artista vive pelo submundo da prostituição japonesa. É um habituée; circula confortavelmente pelas casas de tolerância, de modo a gravar em suas obras a vida das mulheres que ali trabalham. Elas conversam, penteiam os cabelos, vestem-se para trabalhar, esperam os clientes. Falo de Kitagawa Utamaro, ele mesmo, o da Grande Onda de Kanagawa.

Toulouse-Lautrec é conhecido pelos desenhos de traços soltos e firmes e pelas cores fortes com que retratava cenas do submundo de Paris, lugar por onde circulava à vontade. Era outra dimensão: várias pessoas socialmente desimportantes; outras, de hábitos noturnos; tipos que saíam em busca de prazer ou de fuga, porque bem sabemos que às vezes não dá para levar a vida de cara limpa e nada melhor do que uma boa dose de absinto e uma apresentação de cancan, não é mesmo? Bem sabemos, Lautrec.

E era isso que ele desenhava: o desencanto, a efemeridade daqueles momentos de prazer. Lautrec não se preocupava em retratar uma beleza idealizada: com ele era o real. Em suas obras, aparecem, por vezes, rostos feios, mais bizarros do que belos. Não que ele buscasse o grotesco: o feio já estava lá, e era o que Lautrec mostrava. Ouso pensar que essa aproximação do submundo, do que é real – e, também por isso, bizarro – era uma catarse, uma resposta à sociedade que o tinha como motivo de chacota pela sua aparência: uma deficiência e dois acidentes que sofreu, entre outras coisas, o tornavam desagradável à vista.

Ele tinha livre acesso aos bastidores da vida das prostitutas – por ser habituée deles – e as observava em atividades corriqueiras: enquanto descansavam, penteavam os cabelos, vestiam-se para trabalhar, papeavam. Também capturava seu estado de espírito: em algumas pinturas, vê-se que o olhar das mulheres está perdido, como se elas estivessem pensando na vida – o próximo cliente, o show que terminou, os boletos a pagar.

Corta para aproximadamente cem anos antes, em Edo – atual Tóquio. Um artista vive pelo submundo da prostituição japonesa. É um habituée; circula confortavelmente pelas casas de tolerância, de modo a gravar em suas obras a vida das mulheres que ali trabalham. Elas conversam, penteiam os cabelos, vestem-se para trabalhar, esperam os clientes. Falo de Kitagawa Utamaro, ele mesmo, o da Grande Onda de Kanagawa.

Utamaro é um dos mais conhecidos representantes do ukiyo-e, xilogravura e pintura do período Edo – meados do século XVII até quase o final do século XIX – que também retratava o estilo de vida hedonista da sua época. É interessante dizer que ukiyo-e significa algo como “arte do mundo flutuante”. Será que posso falar em demimonde também? Fico à vontade para ligar um submundo a outro, até porque Lautrec foi fortemente influenciado pela estética japonesa nas artes plásticas, que chegava ao Ocidente em seu tempo.

Utamaro é um dos mais conhecidos representantes do ukiyo-e, xilogravura e pintura do período Edo – meados do século XVII até quase o final do século XIX – que também retratava o estilo de vida hedonista da sua época. É interessante dizer que ukiyo-e significa algo como “arte do mundo flutuante”. Será que posso falar em demimonde também? Fico à vontade para ligar um submundo a outro, até porque Lautrec foi fortemente influenciado pela estética japonesa nas artes plásticas, que chegava ao Ocidente em seu tempo.

Utamaro – The hour of the dragon, 1788-1789.
Lautrec – Woman in bed (Femme au lit), 1896.

Há uma convergência de temas: cabarés, prostitutas, prazeres, escapismo. Lautrec, entretanto, imprimiu sua preferência pelo real: enquanto o hedonismo japonês falava de beleza, sensualidade, fantasia e lúxuria, com um tempo e um vocabulário à parte, esse caráter fantasioso em Lautrec não passava da primeira página – seu traço vinha com o peso da realidade, um certo exagero e o gosto pelo grotesco. Ainda assim, ambos estavam em mundos flutuantes, cada um a seu modo.

Outis, como Odisseu. Gosta de comida e revisa. Está aqui: https://www.instagram.com/beatriz.acencio/

A maravilhosa safadeza de Carlos Zéfiro

por Suzi Márcia Castelani

“Carlos Zéfiro tinha uma safadeza tipicamente carioca. Se Nelson Rodrigues conduzia o público até a porta da alcova, era Zéfiro quem deixava a porta escancarada” — define o jornalista baiano Gonçalo Junior.

 [NILDA] . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

Dos anos 1950 aos 1990, quem era Carlos Zéfiro foi uma pergunta sem resposta.

Em 1991, o jornalista Juca Kfouri anunciou nas páginas da revista “Playboy” da qual era o editor, que Zéfiro era, na verdade, o funcionário público aposentado Alcides Aguiar Caminha, que vivia anônimo, cercado de filhos e netos, no bairro carioca de Anchieta.

Mas nas décadas 1950 a 1970 com o pseudônimo de Carlos Zéfiro ele foi muito popular na literatura erótica brasileira com suas revistas chamadas de “catecismo”.

Com títulos sensacionais como O Médico da Roça e muitas com nomes de mulheres como Nilda Odaléa as revistinhas eram produzidas à noite, enquanto sua mulher dormia, desenhadas a pincel bico de pena e  impressas em preto e branco, sendo importante ajuda no orçamento de Alcides, que morria de medo de ser descoberto e exonerado do cargo público que ocupava no setor de imigração do Ministério do Trabalho.

Esse medo fez com que ele não guardasse nenhum original. Num período de muito pouca liberdade sexual, as revistinhas eram em formato que permitiam caber no bolso e comercializadas em bancas onde o jornaleiro as vendia de forma dissimulada, dentro de outra publicação.

[O Beijo]. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

Após a revelação da sua identidade em 1991, ele viveu apenas mais nove meses. Nesse curto período recebeu reconhecimento em forma de entrevistas para jornais e televisão, foi homenageado numa Bienal de Quadrinhos e em 1992 recebeu o Troféu HQ Mix.

Embora autodidata e tendo desenvolvido sua arte da forma como quase todos começam, ou seja, copiando seus ídolos, o traço de Carlos Zéfiro é inconfundível. Imperfeito, forte, direto ao ponto. É a fantasia de alguém com pouca escolaridade e sensibilidade de sobra na forma de desenho.

Mas sua obra não se limita às artes gráficas. Alcides compôs três sambas, em parceria com Nelson Cavaquinho: A flor e o espinho, Capital do samba e Notícia e tenho certeza que você conhece esses versos:

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu so errei quando juntei minh’alma a sua
O sol não pode viver perto da lua

A flor e o espinho está tocando ali ao lado no Rádio Drops e alguns estudos de sua obra estão na Prateleira da Fal, também ali ao lado pra quem quer saber mais sobre o artista.

É uma obra notável de um artista que manteve sua arte no anonimato por quase uma vida. Uma arte que falava de sexo, de desejo, de encontros. Algo tão profundamente humano que sobreviveu ao anonimato e pode se reencontrar com seu autor, ainda em vida, por falar exatamente disso: vida.

Suzi Márcia Castelani é artesã, editora e mediadora do impossível. Não necessariamente nessa ordem.

Quem melhor nos retratou na literatura do século XIX?

por Elaine Cuencas

Faço uma busca no Google e encontro o titulo Para traduzir o século XIX, Machado de Assis, de Eliane Fernanda Cunha Ferreira que, segundo a resenha, trata do Machado tradutor. Não falo nem de um, nem de outro. A pesquisa era só o fruto de um minuto de insegurança, por ter pensando em falar a respeito de Machado de Assis.

Gosto tanto dele, mas como não sou especialista em nada, tenho sempre esse fatídico minuto de insegurança intelectual que me joga, às vezes, nos livros que tenho por aqui, outras, confesso, nessa bendita muleta chamada Google.

O que me atraiu no título que provavelmente não lerei foi o tamanho da ideia. Quem lê os contos, as crônicas, os romances do nosso Machado tem essa impressão mesmo. Ele escreve a respeito de temas tão incríveis que traduzem o século XIX e os homens que agora já estão quase na metade do XXI.

Lembro sempre das reações que a leitura dos contos provoca em mim. Não é incomum acabar conversando com as personagens, me mordendo de raiva ou pensando nessa fatalidade que é o ser humano.

Lendo Causa secreta, senti o mal estar de quem sofre e sabe, sem admitir, que a causa do sofrimento é alguém que está mais próximo do que seria louvável que estivesse. Aquele homem que tem prazer em provocar dor em toda criatura viva é uma representação violenta do que somos.

Lendo Pai contra mãe, senti o mal estar de reconhecer que “nem todas as crianças vingam”. Retrato de uma relação social injusta que não muda nunca.

Lendo Teoria do medalhão, senti o mal estar de entender tim tim por tim tim como a sociedade vai incorporando seus janjões. Tema atual, não é?

Lendo Um homem célebre, me comovi com Pestana que tenta fugir da indústria cultural, sem conseguir.

Lendo Cantiga de Esponsais encontro o Machado poético, tão poético que até dói.

Lendo os romances, vejo nossa vida interior descoberta, nossa vida social escancarada, nossa sociedade esquadrinhada, todas as mazelas reveladas.

Não faço critica literária, não quero saber mais do que ninguém, falo como a leitora que descobriu, nos exemplares do Clube do Livro deixados pelo pai que abandonou a casa, uma maneira de identificar sentimento, lugar social, o país e seus homens poderosos.

Desde de a leitura daquele exemplar de capa mole, que ficava na gaveta nem sei porque, Machado de Assis é meu mestre, me ensina a pensar.

Machado de Assis, tradutor do século XIX, profeta do XXI. Companheiro de sempre.

Elaine Cuencas é professora e estudiosa da literatura brasileira.

Brindando no Moinho Vermelho

por Lucas Pedroso

Quando recebi a incumbência de criar um coquetel em homenagem a Lautrec, logo descobri que já existe um, o Earthquake, que leva absinto e conhaque (bendito Google que tudo sabe, tudo vê). No entanto, tomar o caminho fácil de reproduzir este clássico seria de mau gosto, pois o absinto remete ao alcoolismo deste gênio, que levou à sua morte precoce. Pensei então em criar algo que celebrasse sua obra, e assim o fiz.

Decidi por algo vermelho, a ser batizado Moulin Rouge. Ato contínuo, pesquisei por ideias e descobri que, não surpreso, diversas criações já têm este nome (maldito Google que tudo sabe, tudo vê). Bem, não importa. Este é o Moulin Rouge do Drops, exclusivo para quem tiver a paciência de me acompanhar.

É difícil falar em bebida vermelha e não pensar em Campari. Uma característica deste aperitivo é seu amargor, este propositalmente colocado pois, se por um lado não quis ressaltar as desventuras de nosso homenageado, não há como ignorá-las. A quantidade de Campari deve ser ponderada de modo que, como na vida, o amargor não seja intenso a ponto de tirar a vontade de brindar e festejar. O uso do açúcar queimado e do cravo foi uma tentativa, ingênua talvez, de colocar um toque de charuto, ao que deveria cheirar o Moulin Rouge à época. O Cointreau não está aqui apenas pelo nome francês, senão por sua doçura e inconfundível sabor de laranja. A água de rosas é o toque final, que trouxe o feminino quase onipresente na obra de Lautrec. Sim, há sempre o perigo de deixar o coquetel com gosto de sabonete. A sedução tem limites, queremos ser sexies sem sermos vulgares. É evidente que este ingrediente é opcional mas, se for omiti-lo, tenha a decência de não decorar o drinque com uma pétala de rosa.

É importante relatar que testei uma outra versão para o coquetel, na qual substituí o chá de hibisco e a água de rosas por morangos macerados no açúcar. Neste caso, é importante coar o líquido escarlate antes de passá-lo para a taça, de preferência em um chinois para que todas as sementinhas fiquem retidas e também para aumentar a francofonia da experiência. Este coquetel ficou, vá lá, mais saboroso e menos ousado, além de algo como leve demais, e talvez por isso tenha fugido demais do tema. Ainda assim me comprometo a fazê-lo em casa para os amigos que quiserem. Uma terceira versão, com suco de uva e cardamomo, ficou também muito saborosa e gerou uma foto lindíssima, mas ficou mais pra Pourpre que pra Rouge, estando assim desclassificada.

Peço desculpas por ter sido tão óbvio em minhas referências à vida e obra de alguém tão genial. Sou dos números e não das letras e, por isso, ironicamente, sou literal demais.

Foto de Fernando Passarini

Segue, por fim, a receita do coquetel. Santé!

Moulin Rouge

20ml de Campari
60ml de gim
20ml de Cointreau
45ml de chá de hibisco com um toque de cravo adoçado com açúcar queimado
Gotas de água de rosas (algo como meia colher de café)

Sacudir todos os ingredientes em coqueteleira cheia de gelo e coar em uma taça.

Lucas Pedroso é doutor em Matemática Aplicada. Não que importe, mas é a isso que se resume seu currículo. De típica personalidade taurina, não acredita em signos. Consegue discorrer sobre qualquer assunto por não mais do que três minutos.

O artista do tesão

por Char I. Melhein

Red light district – Amsterdã
Foto de Caroline Castelani

Para além de qualquer discussão sobre a importância do século XIX, tema preferido da minha companheira, o que me interessa, em Lautrec, é o tesão. Dele. Pelas garotas que ele pinta. Pela cidade que ele vive. Pela vida que ele tem. 
Fosse qual fosse a orientação sexual do velho Lautrec, seja qual for a orientação sexual do espectador de sua obra, o trabalho dele nos dá tesão.
Lautrec pintou muitas cenas, um período inteiro da vida da França. E pintou mulheres. Dançarinas e prostitutas, lavadeiras, empregadas, esposas burguesas, turistas. 
As mulheres de Lautrec têm cheiro, sua pele tem textura. Elas estão vivas, todas elas. Têm vidas repletas de acontecimentos, pessoas, exigências, compromissos, mesmo as entediadas, mesmo as tristonhas.
São seres complexos, atraentes. E se parecem tão atraentes para você e para mim, é de se supor que fossem atraentes para o pintor.
E a cada rosto, par de pernas, cabelos em penteados elaborados e solidão em frente a uma taça de vinho: tesão.
Tesão sexual? Claro. Mas tesão pela existência, principalmente. Pela vida que, no fim do século XIX, se transformaria como em nenhuma outra época.
É disso que eu falo. Também. Lautrec, com seus traços, suas cores, seus cartazes, a cada linha desenhada grita: “Vai lá fora, seu paspalho! Vá ver as pessoas e suas dores, vá experimentar, vá respirar fumaça, beber absinto, fumar um cigarrinho do capeta!”. 
Os quadros de Lautrec, para mim, são o depoimento de um artista que ama e deseja a vida tanto quanto ela o apavora e deprime.
Lautrec não teve uma existência risonha, nem viveu em tempos simples: a Paris da virada do século não era território para diletantes. Era um homem angustiado, alcoólatra, com problemas físicos e inquietude d’alma. Apesar dos dramas pessoais, ele nos legou uma obra imensa, de múltiplos entendimentos, passível de toda sorte de análise e cheia de tesão.
A inquietude a que Lautrec nos leva, por meio do desejo, é a inquietude dos que sentem e se deixam levar pelo sentir, mas também dos que pensam, elaboram, buscam, pesquisam, racionalizam. 
Porque pensar e sentir, com Lautrec, como na vida real, são atividades indissociáveis.
Pensemos, isso é maravilhoso, mas ainda é nosso corpo quem nos leva para passear.

Char I. Melhein é de 1956, mas isso não deve ser usado contra ele. produtor de pimenta e orégano (não, isso não é um eufemismo), arquiteto, ele é servo de seis cachorras gigantescas que têm uma piscina só delas.

Aniversariantes de Maio

Sigmund Schlomo Freud, mais conhecido como Sigmund Freud, foi um médico neurologista criador da psicanálise. Sim, a certeza de que culpa é toda sua agora é ciência. E a culpa é dele.

Arthur Ignatius Conan Doyle foi um escritor e médico britânico, nascido na Escócia, mundialmente famoso por suas histórias sobre o detetive Sherlock Holmes. Quem é o assassino não importa. Ainda assim, queremos saber.

Expediente:
Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Suzi Márcia Castelani
Colunistas: Elaine Cuencas, Beatriz Ortis, Char I. Milhein, Lucas Pedroso

Fotos: Caroline Castelani e Fernando Passarini

Ilustração da Capa: Lautrec – Femme qui tire son bas (1894)

EDITORIAL

Chico que amava Bibi que amava Paulo que amava Eurípedes que não amava ninguém

Queríamos falar de censura, de perda, de dor, de traição e autoritarismo, sem falar de nós. Sem falar tanto de nós.

Buscamos alguém que já havia feito isso muito bem.

Paulo Pontes e Chico Buarque, na década de 1970, buscaram no mais trágico dos poetas trágicos inspiração para compor uma pérola.

A peça Gota D’Água é uma releitura de Medeia de Eurípedes, que foi encenada a primeira vez em 431 a.C., em Atenas, nas vésperas da batalha do Peloponeso.

Medeia já fazia parte do repertório de mitos gregos, mas foi Eurípedes que redefiniu sua apoteose. Antes de Eurípedes, eram os cidadãos de Corinto que matavam os filhos de Jasão e Medeia, para puni-la e vingar a morte de seu rei.  A partir de Eurípedes, é Medeia que mata os próprios filhos para punir Jasão.

Numa época em que ainda não havia o conceito de bons e maus, céu e inferno que o cristianismo nos legaria séculos mais tarde, Medeia é feiticeira, amante apaixonada,  companheira de batalha com papel determinante na conquista do feito heroico que havia alçado Jasão à condição de herói, mas havia lhes exilado e tirado a cidadania.

Na busca da cidadania perdida, Jasão toma um atalho. Abandonar Medeia para se casar com a jovem princesa Glauce, filha do rei de Corinto.

A partir daí Medeia age, pela magia e pela palavra, para se vingar de Jasão.

Gota D’Água transporta a tragédia para o subúrbio do Rio de Janeiro. Bibi Ferreira faz Joana, no papel principal.

A peça foi censurada e para liberar o texto alguns cortes foram negociados. Foi premiada com o Prêmio Molière que os autores recusaram em sinal de protesto contra a proibição, no mesmo ano, de obras de outros autores, como O abajur lilás, de Plínio Marcos e  Rasga coração, de Oduvaldo Vianna Filho.

Pela palavra, no século V a.C., Eurípedes explora os limites da dor e do ódio, questiona o papel relegado ao feminino, mostra o avesso da lealdade e resgata Medeia num carro do deus Sol.

Somos aqui o coro, que acompanha, aprova, desaprova, se angustia e silencia no final.

Chico e Paulo beberam da melhor das fontes.

Queríamos falar de censura, de perda, de dor, de traição e autoritarismo, sem falar de nós. Sem falar tanto de nós.

Ao fim e ao cabo, Medeia somos todos nós.

As Editoras.

Ilustração de Sany Alice

Sany Alice é designer, ilustradora e pode ser encontrada aqui: https://www.behance.net/sanyalice