Poente


de Priscila Andrade Cattoni

Deito na cama com lençol de cem mil fios, olho o teto que precisa de pintura e lembro que você já vai chegar. Adormeço.

Acordo com um par de mãos quentes descendo pelas minhas costas frias e relaxadas. Penumbra no quarto, silêncio de pôr do sol. Uma luz avermelhada se esgueira pela janela, tecendo imagens na parede. É a luz do dia que vai sumindo detrás da silhueta do pão de açúcar e do Cristo redentor. Viro, te abraço, nos aconchegamos.

O jantar segue esfriando nas panelas, os gatos dormem no sofá. Não nos vestimos, não escolhemos um filme ou uma peça. Deito aninhada no seu peito enquanto você me conta como foi seu dia, pergunta do meu. Respondo baixinho. Uma conversa de sussurros, pequenos murmúrios e leves suspiros sonolentos começa e se encerra num sono bom que nos leva noite adentro.

Amanhã recomeçamos. Amor.

Priscila Andrade Cattoni – Poeta e editora. Desde 2003 produz o blog Dedo de Moça, onde pode ser encontrada: http://dedodemoca.blogspot.com/

Marielle, um ano

de Renata Lins

Há um ano, a Lu escreveu “meu coração com os queridos do Rio”.

Eu não sabia do que ela falava, e fui saber.

Dei um grito alto: “Mataram a Marielle!”, sem querer acreditar.

E chorei abraçada com meu filho.

Marielle, a força. Marielle, o sorriso. Marielle, a luta. Marielle a esperança.

Marielle, que eu tinha abraçado de alegria há tão pouco tempo.

Mataram.

Não sabiam que ela ia ficar. Que ela ia crescer. Que ela ia germinar.

Marielle que acompanha a gente e ajuda a atravessar a chuva fria.

Marielle que tá no mundo agora. O sorriso. A força. A esperança. A vontade.

Marielle, bora lá. Ainda tem caminho. Tanto.

Renata Lins é economista, canhota, e pode ser encontrada aqui: 
https://chopinhofeminino.blogspot.com/

O turismo que muda o (seu) mundo

por Mariana Aldrigui

Se a palavra é TURISMO, a imagem mental criada costuma ser de praia limpa, tranquila, coqueiros, sol, corpos bronzeados. Com alguma elaboração, camisas floridas, câmeras fotográficas, monumentos icônicos.

Fizemos mal o nosso trabalho – e digo fizemos pois sou parte envolvida nos processos – ao não conseguir, até hoje, ampliar a leitura de turismo para os aspectos que importam de verdade quando se fala em buscar mais qualidade de vida.

Não resta dúvida que viajar é algo que todos deveriam poder fazer. Desligar-se da rotina estressante, conhecer lugares novos, experimentar sabores e cores diferentes, ampliar a noção de mundo e de humanidade. Mas também sabemos que, por mais que seja importante, em muitos dos casos nossa situação não nos permite fazer a viagem dos sonhos.

Morando em São Paulo, e com a oportunidade de conhecer outras grandes cidades do mundo, sempre me incomodou o fato de a cidade não ser um destino consolidado, daqueles em que a gente se esbarra nos turistas no metrô e ouve o tempo todo um idioma diferente ao andar na rua. O que falta para que o lugar em que escolhi viver seja mais interessante para os visitantes?

Pouco a pouco, ao mesmo tempo em que me afastava de maneira consciente dos pesquisadores tradicionais e suas propostas repetitivas e observava com mais cuidado a relação entre visitantes e moradores de um local, foi possível reconhecer algumas abordagens que, necessariamente, fazem a diferença entre, por exemplo, Londres e São Paulo.

Convido o leitor a um exercício mental – quando você tem um destino favorito, daqueles que sempre aparecem entre suas opções de viagem, o motivo da sua segunda ou terceira visita é o atrativo turístico que saiu na foto e recebeu as curtidas nas redes sociais? Garanto que a resposta é não.

O que muita gente não percebe é que a forma de viver em uma cidade, a relação de seus moradores com o que a cidade oferece, é o que mais chama nossa atenção e cativa nossos corações e mentes: o metrô que cobre a cidade, as linhas de ônibus que respeitam os horários e atendem a todos, a segurança, a possibilidade de caminhar por ruas e avenidas sem estar apavorado e abraçado a seus pertences, impedido de observar o que acontece ao seu redor.

E mais – encontrar o diferente, os diferentes, e reconhecer que há respeito, e oportunidades e perceber nos moradores certo orgulho de estar lá, de dizer que vivem lá

Não é difícil ter orgulho das belezas do Brasil, mas tem sido complicado dizer que vale a pena morar aqui. Desenvolvemos um espírito competitivo, exibido em diferentes conversas, exaltando o tempo que passamos no trânsito, a quantidade de vezes que fomos assaltados, a resiliência que dispomos ao lidar com a quantidade de notícias ruins, de condições lastimáveis da vida na urbe.

Pouco a pouco, porém, decidimos assumir alguma responsabilidade. As razões são várias, mas decidimos sair dos shoppings para ocupar os espaços abertos. Reunimos os amigos para colocar um pouco de cor e música, e povoamos as praças, os elevados fechados aos carros, as avenidas que antes eram só poluição. Aprendemos a olhar para os nossos bairros e compartilhar a cerveja, na mesinha da calçada, e a levar mais gente para lá. E vamos transformando os desafios em poesia, devagar. É aqui, bem aqui na troca real, que há um turismo podendo mudar o mundo ao seu redor.

Aquele espaço, antes vazio, pode receber o visitante que em outros tempos não viria, mas que agora pode vir pois o preço é acessível. E o dinheiro dele vai circular na padaria da esquina, no boteco, na farmácia. E uma nova amizade pode surgir, e mais gente virá, e vamos aprender que para que as coisas melhorem, precisamos cuidar do que está ao nosso alcance. A cama limpa, o preço honesto, o serviço alegre, e a indicação correta são o começo. A construção de uma consciência de direito ao espaço público vem logo em seguida, assim como a força coletiva para cobrar com mais empenho as melhorias necessárias a uma condição de vida digna. Para quem mora aqui. E depois, para quem vem nos visitar.

Mariana Aldrigui é pesquisadora em Turismo Urbano da USP / presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP

Expediente:
Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Suzi Márcia Castelani
Foto do Editorial: Ricardo Cabral
Colunistas: Ana Paula Medeiros, Claudio Luiz Ribeiro
Luciana Nepomuceno, Mariana Aldrigui,
Priscila Andrade Cattoni e Renata Lins.
Imagem: Ana Paula Medeiros