Aniversariantes de janeiro, fevereiro e março

Isaac Asimov

Nasceu em 02 de janeiro de 1920, em Petrovichi, na Rússia Soviética e morreu em 06 de abril de 1992, em Nova York. Isso, por si só, já é um puta arco dramático.

Passou a vida explicando conceitos científicos de forma histórica em livros que lemos, relemos e a partir dos quais são feitos memoráveis filmes.



Victor Hugo

Nasceu em 26 de fevereiro de 1802, em Besançon, e morreu em 22 de maio de 1885, em Paris, França.

Leu, escreveu, discursou, militou pelos direitos humanos, mereceu ser esculpido por Rodin e disse da vida:

Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos.


Bispo do Rosário

Arthur Bispo do Rosário Paes nasceu em 16 de março de 1911, em Japaratuba, Sergipe, e morreu em 05 de julho de 1988, no Rio de Janeiro.

Foi marinheiro, boxeador e empregado doméstico até receber o chamado. Apresentou-se então ao Mosteiro de São Bento onde anunciou a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos.

Recolhido na Colônia Juliano Moreira, permaneceu lá até sua morte, cinquenta anos depois.

Produziu muitas peças com matéria prima vindo de sucata e lixo. O Drops ama o Manto da Apresentação, que Bispo certamente vestirá no dia do Juízo Final.

Sua obra tinha como missão marcar a passagem de Deus na Terra.

Manuel Bandeira

Nasceu em 19 de abril de 1886, em Recife, e morreu em 13 de outubro de 1968, .

Poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor.

Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e, por isso, passou infância e adolescência recluso, poupado sempre de esforços físicos, ventos e estiagens.

De vida contida, produziu seus poemas como quem espia:

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:

_ “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa…

Expediente:
Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Suzi Márcia Castelani
Colunistas: Fal Azevedo, Beatriz Ortis, Pedro Eloi Rech e Suzi Márcia Castelani

EDITORIAL DE NATAL 2019



Meu 2019 – Ah, sim, falemos de mim e de meu adorável umbigo – foi feito de muitas e muitas lasquinhas de memória, diagnósticos assustadores, alívios imediatos, busca pelo termo exato, testemunho de amigos tentando, falhando e tentando de novo, um coração ainda partido, a mão estendida duma amiga viajante – num outro ano – que pairou por 2019 como uma benção, algumas taças de vinho cor-de-rosa, a publicação de um livro adorado e a promessa de outros, uma muito feliz parceria de trabalho com Nega Véia Suzi, trabalho que só fez se consolidar este ano e cujo frutos não fazem feio em fruteira alguma, dentes que doeram, amigos que, apesar da convivência e do conhecimento da história de minha mãe (para não mencionarmos a história deste porto tropical), adoram os muitos inomináveis (eis aí algo que tentarei entender nos próximos anos), gatinhos que chamo de esquilos, cãozinho que chamo de coelhinho e risotos perfeitos.

Nosso escrutínio acerca do ano que está acabando frente ao ano que começa é sempre motivo de espanto para mim. A única atitude racional, que é dar de ombros “foda-se o que passou, vamos ver o que vem por aí”, me é impossível. Eu me flagro de novo e de novo revisando os meses, copidescando o que fizemos e dissemos, preparando os originais do que foi abandonado ou levado adiante, do que foi concluído, do muito que sequer foi tocado. Sabemos, você e eu, que esmiuçar o que fomos e tentar juntar as peças do que acabou, não nos traz qualquer superpoder, não facilita plano algum, não nos permite prever o que virá nem o que seremos. Não se pode melhorar o passado, é impossível planejar o futuro – e se você ainda não sabe disso, eu o amo por sua crueldade e inocência. Ainda assim, volto muitas e muitas vezes ao que quisemos, ao que tolamente planejamos, ao que desejamos e, mesmo sabendo inatingível, esticamos o braço para alcançar. Eu me pego voltando para você de novo e de novo e de novo como se houvesse para quem ou para onde voltar, como se seus braços e eu fôssemos velhos conhecidos, como se voltar para qualquer lugar – um peito, uma casa – fosse possível. No meu querido Drops foi um ano de um excelente livro lançado e a promessa de mais livros lindos para o começo de 2020, um ensaio de Maria del Blog, a definição do No princípio era o verbo, horóscopos cientificamente incontestáveis, chás e bonequinhos e cartazes e canecas, uma linda revista que, olhem só, volta justo agora, um prêmio importante, o reconhecimento deste trabalho sólido e contínuo.

Contamos, Suzi (a melhor, a melhor, a protagonista desta parceria tão sólida e prolífica) e eu, com abraços e olhares generosos de tantos amigos. 2019 foi como todos os anos, telefonemas, desenhos, canções e histórias, dores e criaturas do fundo do mar, roupas na sacola de doação, um lindo vestido preto esperando a ocasião, a promessa do encontro com amigas que amo e que por algum estranho motivo me amam também, joelho esmigalhado, queda da escada, um bom corte de cabelo, um presidente imbecil e assustador, uma calça jeans que tem quase trinta anos, colares no corredor, curry divinal, livros na mesa de centro, uma caixinha de couscous guardada para grandes ocasiões e mais promessas e mais palavras e mais palavras e mais palavras e mais palavras e mais palavras.

Fal Azevedo



Horóscopo de Natal



É Natal. Sim, de novo. Sim, você poderia escapar e não ir à festa, à confraternização. Você escolheu ir. Então murche a barriga, estufe o peito e guente firme. O pesadelo está apenas começando.

Canceriana, é Natal. Se depois de três batidas de pêssego você entoar o cancioneiro de Fred Bongusto em plena festa, comer brigadeirão com as mãos e disser três ou quatro verdades na cara da amante do seu marido (de quem foi a ideia dessa festa cretina?), ninguém aqui vai te culpar. E não se preocupe: se depois de tudo isso você desmaiar no elevador, a gente te carrega.

Peixes: todo mundo chorando copiosamente com a milésima exibição de “Esqueceram de Mim” e você invejando demais o moleque com a casa só pra ele e com a família a quilômetros de distância.

Touro: Se ele sumir no meio da festa é porque correu pra um dos quartos com a prima.

Não, Sagitário. Sunguinha vermelha e boné da Ferrari não configura roupa de Papai Noel. Sobe já e troca de roupa!

Áries: não tem rabanada no mundo que justifique a sua presença num evento que tem o tio Ademar falando que o governo tá é certo.

Leão: Sabemos que foi você que tirou o menino Jesus da manjedoura. Não, substitui-lo por um vibrador de coelhinho não foi engraçado. A pressão da vó subiu.

Virgem: você é um imbecil, votou num imbecil e usar um chaveiro da Bentley não melhora em nada a situação do seu Monza. Passe a noite toda calado, por favor.

Libra: não é pavê e nem pacumê, é pra enfiar no seu cu.

Aquariano: Papai Noel Não existe.

Capricorniano, roubar quitutes da mesa, antes da ceia, ok. Mas botar a culpa no gato quando foi pego, já configura delinquência.

Gêmeos: antes de se lançar no centro da mesa contando suas últimas conquistas e esperando os aplausos de todos os presentes confira se botou cadeado no Twitter, pois as fotos do churrasco da firma ainda estão lá. E não dá pra negar que é você.

Escorpião, se depois de aceitar convites para cinco ceias diferentes, você acabar na casa do primo Gusmão, com um nenê catarrento que você nem conhece no colo, testemunhando DR entre a Shirley e o Raimundinho Jr., é bem feito.



E D I T O R I A L

Carla e Carlota

Ilustração de Sany Alice para o Drops em Revista de Julho


Um jovem escocês procura à beira do mar, uma menina de dez anos: Yolanda.

Ela está zangada com seu tio porque ele riu dela quando dançavam. Para fazer as pazes, o jovem parente oferece-lhe seu exemplar de Robert Burns, mas ela não aceita. Ao ver então uma garrafa no mar, o tio vai pescá-la pois pode ser o caso dela conter um mapa para um tesouro e ficarem ricos.

A garrafa contém uma página de livro sobre Salvador Dali, que alude à existência de borboletas gigantes no Brasil que sugam o cérebro das pessoas. O jovem, brincando com a menina, insiste que de todos os problemas brasileiros, o das borboletas gigantes é o pior. E como sabe muitas histórias maravilhosas, decide contar para a sobrinha, a vida da princesa Carlota Joaquina, princesa do Brasil.

Esse é o argumento e início do filme Carlota Joaquina, princesa do Brazil de Carla Camurati, lançado em 1995 e marco zero da retomada do cinema nacional brasileiro.

Os tempos eram difíceis no início dos anos 1990, mas eu pergunto: quando não foram para a arte e a cultura?

Carla Camurati escreveu o roteiro em parceria, pesquisou, dirigiu, captou recursos e distribuiu seu filme.

Ao se decidir por Carlota, a cineasta escolheu uma época e definiu um caminho.

A montagem de uma história de época, com passagem por duas cortes é empreitada para milhões. Carla conseguiu alguns milhares e se lançou ao projeto.

Não há aqui nenhuma pregação de esforço individualista e premiação meritocrática. Produção cultural não é matéria que deva ser relegada unicamente à iniciativa individual. Uma cultura não se mostra sem autoconsciência.

E autoconsciência implica em trabalho perene, avanço constante e eliminação total do juízo de valor. E isso precisa de apoio estrutural. O olhar para o que somos e o que nos identifica requer distanciamento próprio daqueles que se entendem no mundo e não a serviço dele.

E é justamente a diversidade dos olhares que vai enriquecer esse caldo de cultura que não pode suportar outra temperatura que não seja a da constante ebulição.

Não há bom gosto e mau gosto em produção cultural. Pois o gosto não é uma propriedade inata dos indivíduos. O gosto é produzido e é resultado de uma série de condições materiais e simbólicas acumuladas no percurso de nossa trajetória educativa. O gosto cultural se adquire; mais do que isso, é resultado de diferenças de origem e de oportunidades sociais e, portanto, nenhuma produção cultural pode ser usada como padrão.

Pelo contrário, o incentivo da produção ampla, acessível e removida de qualquer censura vai resultar numa ampla oferta, um rico capital responsável pela formação do gosto cultural dos indivíduos. E a mesma abundância de ofertas se encarrega de selecionar a qualidade do que fica, do que perdura, do que identifica o indivíduo no grupo.

A produção cultural não pode pretender a hegemonia seja de conteúdo seja de estilo. Cada mensagem carece de veículo próprio que a defina.

Carla escolheu o cinema como veículo para registrar o seu olhar sobre nós mesmos. Um olhar de fora, a partir dos olhos de uma menina para quem se contava uma história.

O Drops em Revista quis retomar esse olhar e relembrar esse momento.

Não vamos jamais deixar de reivindicar recursos, espaços e liberdade para todas as expressões. Mas hoje, celebraremos o ato de retomada tão bem realizado por Carla contando a história de Carlota.

Por isso também essa edição é formada só por mulheres, pois defender sua tribo e assumir seu lugar no processo é a forma mais bela de pertencer.

Salvador Dali dizia que no Brasil existiam borboletas gigantes que sugavam o cérebro das pessoas.

É verdade. Mas não sem muita luta.

 As Editoras

Abigail, uma Andrade

por Rita Paschoalin

Oswald, Carlos, Mário. O sobrenome Andrade aparece fácil nos índices remissivos da arte brasileira. O culto pelos Andrades nasce cedo, lá no fundão da sala de aula. Sempre masculino, o sobrenome dita a trilha da leitura modernista do país: siga por Pindorama, insulte o burguês, tenha nas mãos o sentimento do mundo.

No entanto, anos antes de nascer o menino de Itabira ou de se acenderem os escândalos do amor intransitivo, e antes de clamarem que só a antropofagia nos salvaria, o nome Andrade já tinha feito casa nas artes deste país confuso. Num tempo em que os manifestos que inauguraram a modernidade por aqui ainda não tinham sido proclamados, o nome Andrade já traçava não o verso no jornal, mas o pincel nas telas, e deixava um rastro mais sutil do que a pedra no caminho.

Pode-se divagar livremente sobre as razões da invisibilidade feminina na história oficial da arte mundial no século XIX. O fato é que “o” Andrade que pisou o campo das artes antes de nossa tríade mais famosa era, na verdade, uma Andrade.

Quem circulou pela 26ª Exposição Geral de Belas Artes no Rio de Janeiro, em 1884, teve acesso a quase quatrocentas obras de setenta e cinco artistas. Era um ano de grandes transformações aqui e ali. Ceará e Amazonas aboliam a escravidão, o que só ocorreria quatro anos depois no restante do país; a Europa fatiava o continente africano. No Rio, a 26ª Exposição Geral foi a última — e a maior — realizada durante o Império, cinco anos antes da derrubada da Monarquia. A ocasião foi glamourosa, e o catálogo da exposição, custeado por uma renomada galeria de arte do Rio, foi ilustrado por esboços feitos pelos próprios artistas expositores. A grandiosidade do evento foi repercutida pelos principais jornais da época e prestigiada por notáveis críticos de arte.

Entre muitos outros, o elenco de artistas da grande exposição de 1884 incluía nomes como Pedro Américo, o paraibano que logo pintaria seu célebre Independência ou Morte, e Zeferino da Costa, autor das pinturas da cúpula na Igreja da Candelária. Abigail de Andrade, uma moça de apenas vinte anos, natural de Vassouras/RJ, foi uma das quatro mulheres entre os setenta e cinco artistas da exposição. Dentre pinturas, cópias e estudos de desenho, Abigail exibiu quatorze obras no maior evento de artes do Segundo Reinado.

Apenas oito anos depois, em 1892, as mulheres passariam a ter direito de frequentar a Academia Imperial de Belas Artes. Na época da exposição, Abigail estudava há dois anos no Liceu de Artes e Ofícios do Rio, que desde 1881 aceitava alunas na escola. Em linhas gerais, as mulheres artistas da época contavam apenas com aulas particulares ou eventuais aulas livres oferecidas pela AIBA.

Um canto do meu ateliê – Abigail de Andrade


Mesmo sem acesso à formação oferecida pela Academia Imperial, Abigail foi agraciada com a Primeira Medalha de Ouro da grande exposição de 1884, graças ao destaque conseguido pelas telas Cesto de Comprase Um canto do meu ateliê. Foi a primeira mulher a ganhar a medalha, e gosto de pensar que ela rompeu limites e abriu uma janela que nos mostraria, no século seguinte, as cores de nomes como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

Ainda que seu nome não apareça em nossos índices com a mesma assiduidade de outros Andrades que amamos, uma espiada em reproduções das telas de Abigail pode nos surpreender. É fácil imaginar que o silêncio em torno de seu nome reflita mais o espaço negado às mulheres nas academias de arte no século XIX do que a qualidade de seu trabalho.

Cesto de compras – Abigail de Andrade

Imagino os críticos de arte do salão em 1884 diante da variedade de materiais retratada em Cesto de Compras — a madeira da mesa, o metal das moedas, a palha do cesto, as raízes das hortaliças sobre a gaveta esquecida aberta por quem correu para pintar outra luz, uma paisagem, um retrato, romper outro limite. Abigail existiu, foi Andrade, pintou, desenhou e fez da arte profissão, um feito e tanto para uma mulher de seu tempo.

Abigail também amou. E escandalizou, como as personagens do amar intransitivo do outro Andrade. Mudou-se para Paris na companhia de um amor proibido e lá, na terra da arte e da luz, morreu em 1890. Tinha apenas vinte e seis anos. O alvoroço em torno do romance com o celebrado cartunista Angelo Agostini encerrou a convivência de Abigail com a comunidade artística e ajudou a apagar seu nome de nossos índices.

Mas sempre há tempo. Talvez mais humana do que a moral, a arte resiste. E aí penso no cinema, que adora nos jogar nos salões e suores do século XIX — que belo filme não daria a vida de Abigail?

***

Infelizmente, as telas de Abigail de Andrade atualmente compõem coleções privadas e se encontram (ainda) inacessíveis ao grande público.



Estendendo a roupa – Abigail de Andrade

Da união de Abigail de Andrade com Angelo Agostini, nasceu Angelina Agostini, também pintora (1888-1973). Angelina fixou-se em Londres a partir de 1914 e expôs em importantes galerias da Inglaterra e da França. Retornou ao Brasil na década de 1950 e foi agraciada com Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes de 1953. O quadro Vaidade, pintado por Angelina em 1913, integra o acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Rita Paschoalin lê, traduz e escreve. Acredita piamente que só a arte nos salva e nos justifica.



Não vou mais levar você para ver um filme nacional

por Patricia Daltro

–  Você me trouxe para ver um filme nacional? Desde quando um filme nacional presta?” –  pergunta a personagem dentro do filme assistido pelas personagens do filme “Os Farofeiros.”

Como se dialogassem entre si. A personagem que assiste ao filme, representada pela atriz Danielle Winits completa:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real.

Imediatamente a personagem na tela repete a fala da primeira:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real. Não é verdade, gente? Hum?

Neste pequeno e metalinguístico diálogo vemos a essência do que o cinema nacional ainda representa no imaginário popular. Filmes brasileiros não prestam. Ou são tão autorais, que se restringem a um seleto publico que “os entende”, os famosos filmes “cabeças” ou se resume a putaria e palavrão. Esta mentalidade não surgiu do nada. Foi construída e pavimentada por décadas, regadas à falta de incentivo financeiro, censura e tecnologia obsoleta, além da competição injusta com as produções hollywoodianas.

Podemos dividir a história do cinema nacional em momentos distintos, até agora.

Por incrível que pareça, foi na década de 1970 que o cinema nacional alcançou seu auge. Embora tenha sido durante a ditadura que tenham sido criadas a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filme) e a Concine (Conselho Nacional de Cinema), que fomentaram a produção cinematográfica, a mesma, restringia, através da censura, a diversificação da produção. Restou aos cineastas nacionais burlarem o sistema com histórias ufanistas, bibliográficas, infantis (Os Trapalhões como grande expoente), e, é claro, a pornochanchada, que levou à população a lotar suas salas – embora restritas a uns poucos cinemas.

Com a retomada da democracia, era de se esperar que, assim como na música e em outras produções culturais, o cinema também se reestruturasse e trouxesse novos ares e temáticas. Mas, a crise econômica dos anos 1980 e a recessão que assolou o país durante os primeiros anos da década de 1990, ocasionou a quebra do cinema nacional. Salas foram fechadas, produções canceladas. O auge da crise aconteceu durante o governo Collor de Mello que suspendeu, através de medidas provisórias, quase todos os mecanismos de incentivo, extinguindo a Concine e a Embrafilme, ações que levaram a estagnação quase completa das produções nacionais.

Somente após a deposição do presidente Collor, a criação da Lei Audiovisual do presidente Itamar Franco, as políticas estatais de fomento à cultura do presidente Fernando Henrique e a lei Roaunet, promulgada pelo presidente Collor, mas que só veio a funcionar, mesmo timidamente, nos meados dos anos 1990, foram sem dúvida, as ferramentas propulsoras deste movimento de retomada do cinema nacional. O advento de novas tecnologias, de linguagens mais atraentes ao público em geral e a entrada em cena de novos cineastas, que trouxeram diversificação ao cinema, consolidaram esta etapa.

O filme tido como marco inicial deste período foi Carlota Joaquina, de Carla Camurati, lançado em 1995, primeiro filme nacional da década a levar mais de um milhão de pessoas ao cinema.



Imagem de divulgação do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil de Carla Camurati

O filme produzido com baixo orçamento, trazia uma nova forma de contar a história do Brasil. A chegada da corte portuguesa às terras brasileiras, tendo a princesa Carlota Joaquina como a protagonista e trazendo um d. João VI caricato e glutão, utilizou uma linguagem pautada no humor ácido, tão em alta nessa década, uma relação que flertava com a teledramaturgia do horário nobre das TVs, que caiu no gosto popular e abriu os portões para que outros explorassem esta e outras linguagens.

Encerraria esse texto aqui, desejando um final feliz para o nosso cinema, com quase duas décadas de sucesso, com produções chegando aos milhões de espectadores. Mas, a triste verdade, é que hoje vivemos novamente, um período obscuro, onde não apenas uma recessão e restrições financeiras ameaçam nossa história cinematográfica, mas também, restrições de ideias, mental e cultural, sem dúvida, esse é o período mais perigoso que nosso cinema já enfrentou até hoje.

Patricia Daltro é artesã e escritora. Ela pode ser encontrada aqui: http://avidasemmanual.blogspot.com/

Mais um dia nacional do livro?

por Ana Cristina Rodrigues

Todos os anos, as redes sociais são tomadas por uma série de efemérides (nem acredito que consegui usar essa palavra) ligadas ao mundo do livro. Dia Mundial do Livro, Dia do Leitor, Dia do Livro Infanto Juvenil… Quando chega outubro e começam a aparecer as postagens sobre o Dia Nacional do Livro, todos estão de saco cheio e resmungam sobre a necessidade de ter tantos “dias do livro” assim. Mas o dia 29 de outubro tem um bom motivo para ser comemorado no Brasil – e ser o nosso dia nacional do livro.

Sabem a Europa pós-Renascimento? Universidades florescendo, livros sendo impressos, o humanismo surgindo? Bem, a distribuição pelo tal “Novo Mundo” não foi muito igualitária. Portugal, preocupadíssimo em manter suas posses seguras e protegidas, não permitiu a abertura de universidades, não permitiu que a imprensa se estabelecesse aqui. A circulação de ideias dentro do Brasil era limitada e informações sobre o Brasil eram censuradas abertamente – um dos documentos mais reveladores sobre as estruturas econômicas do nosso país no século XVIII, Cultura e opulência do Brasil do jesuíta Antonil, teve todos os seus exemplares recolhidos e destruídos por ordem da Coroa.

Ou seja, éramos tão colônia, mas tão colônia que nem a Inquisição tinha filial aqui. Às vezes, mandava uns visitadores para vigiar se nossos genitais estavam sendo utilizados da forma certa, porque afinal existem prioridades, mas sem estabelecer tribunal aqui porque não era para tanto.

Acontece que um corso invocado assumiu o governo da França e resolveu invadir Portugal. A família real fez a coisa mais sensata no momento e fugiu para o Brasil em 1808. Só que isso inverteu a ordem natural que eles mesmos tinham estabelecido por séculos. A colônia oprimida e obscurecida virou metrópole. E aí?

Aí, foi correr para recuperar o tempo perdido. Pintar paredes, urbanizar a área do porto, expulsar as pessoas das suas casas… Deixar o Rio de Janeiro, nova residência da família real, com cara de Corte – no mínimo. E, claro, acomodar os pertences todos nos prédios a serem ocupados pelos nobres lusitanos. Em “pertences”, estavam incluídos aproximadamente sessenta mil itens de interesse “cultural”, entre livros, medalhas, mapas e moedas.

E você aí, reclamando da estante cheia.

Uma coisa curiosa é que boa parte da coleção de livros inclusa nessa contagem era uma aquisição relativamente recente da família real. O terremoto que acabou com uma boa parte de Lisboa em 1755 prejudicou muito a Biblioteca Real que ficava no palácio da Ajuda. Procurando restaurar a coleção, a Coroa adquiriu a coleção do abade Diogo Barbosa Machado, que incluía livros sobre os feitos de Portugal, vidas de santos e nobres – e uma coleção de gravuras cuidadosamente montada pelo próprio abade, que as recortava de outros livros para colar em volumes únicos e temáticos.

A coleção do abade atravessou o oceano encaixotada, junto com a nata da nobreza portuguesa. Mas ao chegar no Brasil, ficou sem teto, assim como seus companheiros, por algum tempo. Até que em 1810, arranjaram um porãozinho no Hospital da Ordem Terceira, ali no centro do Rio de Janeiro, para acomodar todas aquelas muitas peças. Assim, em 29 de outubro de 1810 foi inaugurada a Real Biblioteca, acessível apenas a estudiosos com autorização régia.

Então, isso mesmo: o nosso dia nacional do livro é o aniversário da Biblioteca Nacional – o nome definitivo veio em 1876, depois de várias aquisições, reformas e uma primeira mudança, para o prédio onde hoje é a Escola Nacional de Música. (Os cariocas conhecem o prédio como aquele que tem a parede pintada com a parede do prédio, ali entre a Lapa e o Passeio).

Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro

Mas como as coisas no Brasil são sempre complicadas quando se trata de cultura, a Biblioteca sofria com orçamentos apertados, falta de funcionários e instalações cheias de problemas. Sim, no século XIX os bibliotecários-chefes já reclamavam disso. Quanto mais as coisas mudam…

A segunda grande mudança da Biblioteca Nacional veio junto de uma grande mudança do próprio centro da cidade, agora já capital federal da República. A reforma de Pereira Passos deu à Biblioteca Nacional a sua sede até hoje, 2019 – um prédio arrojado e pensado para ser a casa de uma coleção bibliográfica gigantesca em 1910, mas que atualmente sofre para receber e acomodar a memória livresca nacional.

O prédio anterior estava mesmo pequeno, principalmente depois de receber a doação do imperador exilado – mais de cem mil volumes, na coleção que hoje é chamada de Coleção Teresa Cristina Maria. A Biblioteca Nacional não foi a única beneficiária desse ato, pois além desses livros, Pedro II deixou o palácio de Petrópolis com móveis e utensílios, base do atual museu imperial. E claro, a sua maior contribuição para a ciência brasileira foi a doação da coleção de artefatos históricos e arqueológicos que deram origem ao Museu Nacional: múmias, fósseis, meteoritos, peças da antiguidade clássica. Infelizmente, o republicanismo de resultados dos últimos anos deixou que essa parte do legado ardesse – e se o caminho continuar sendo o atual, nem a parte que sobrou está segura.

Nada mais justo que o aniversário da Biblioteca Nacional ser o dia nacional do livro. Além de ser parte fundamental da história da leitura e da literatura em nosso país, a Biblioteca é onde fica o registro oficial dos direitos autorais de obras literárias (através do Escritório de Direitos Autorais) e é a responsável pelo cumprimento da lei de Depósito Legal, que diz que todo o livro publicado no Brasil deve ter um exemplar enviado para o acervo da BN. Também já foi, por algumas vezes, parte da política nacional do livro e da leitura, mas essas iniciativas acabam sendo governadas mais pelos quereres políticos do que pelas demandas do Estado, e a Biblioteca perdeu boa parte desse projeto com a saída do Programa Nacional de Incentivo a Leitura e do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Mesmo com todas as dificuldades – lembram dos orçamentos apertados, da falta de funcionários e das instalações cheias de problemas – a Biblioteca resiste. Seu projeto de digitalização de obras é reconhecido no mundo todo e as fotos doadas pelo imperador são consideradas patrimônio cultural da humanidade. Pesquisadores usam suas obras para desvendar o passado e buscar respostas para o futuro. Escritores e cineastas protegem seus direitos autorais e guardam seus originais no depósito. Ela é o símbolo nacional do livro, uma pequena amostra da riqueza que geramos em pouco mais de dois séculos de liberdade de pensar (mesmo que por vezes limitada e censurada).

Ana Cristina Rodrigues é escritora, historiadora e tradutora, além de servidora da Biblioteca Nacional desde 2006. Seu primeiro romance, Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, fala de memórias, lembranças e uma cidade-biblioteca, podendo ser comprado em pré-venda no link https://www.lendaristore.com.br/atlas



O que faz minha cabeça

por Flávia Guimarães

O que faz minha cabeça é, e sempre foi, uma boa história. Desde menina pequena. Desde os tempos que meu avô Fernando me contava a história do aniversário do elefante. Ele fazia a voz de cada animal e a voz do elefante era muito grossa e eu escutava fascinada, entrando pra dentro da floresta, caminhando ao lado do elefante que já era meu amigo. Sou feita todinha de histórias. Mas não me venha com muitas filosofias que não gosto. E deusmelivreguarde das teses e dos ensaios. Isso você deixa pra Ângela, aquela intelectual. Eu gosto mesmo é de histórias de gentes que me levam para seus lugares e gostos, que me apresentam suas famílias, seus amigos, seus amores. Não há nada melhor que um bom personagem. Só comida mesmo. E sexo, claro. Um bom personagem me conquista irremediavelmente e me arrasta com ele por sua vida que vira minha também. Talvez por isso eu esteja tão feliz por agora. Porque estou vivendo a realização de um grande sonho, aquilo para o qual venho me preparando desde pequena. Pois a menina que amava as histórias do avô Fernando agora vive de contar as suas. É sorte que fala, né? .

Flávia Guimarães é uma doce criatura e tem uma risada deliciosa. É atriz, produtora, roteirista, mãe de dois, mulher de uma.