A Chegada da Família Real no Brasil: transformações e crescimento desigual na cidade do Rio de Janeiro

por Ana Paula Medeiros

P.R. Príncipe Regente ou Ponha-se na Rua?

As primeiras histórias que circulam dão conta desta singela placa que era afixada na porta das casas requisitadas por decreto real para receber os membros da Corte portuguesa que chegaram ao Rio de Janeiro em 1808. Oficialmente, queria dizer que você estava sendo honrado com um pedido de despejo para que algum nobre passasse a morar ali, mas a sempre sábia e gaiata população traduziu melhor as iniciais. 

Todo mundo afiado com as aulas de História que contam como Napoleão dominava a Europa, ameaçava invadir Portugal e aí D.João veio com malas e cuias pro Brasil? Posso pular esse pedaço?

Bom, deixa eu contar um tiquinho como era o Rio de Janeiro naquele momento, pra vocês entenderem o tamanho das transformações. 

De 1565, quando foi fundada, a 1800, o Rio se limitava ao espaço existente entre quatro morros: Castelo, São Bento, Santo Antônio e Conceição, dos quais hoje apenas São Bento e Conceição ainda existem, além de uma pequena parte do Morro de Santo Antônio, onde se pode ver o convento de mesmo nome, no Largo da Carioca. Fora isso, tinha umas picadas que levavam às áreas rurais no interior. Mesmo entre os morros, predominavam terrenos encharcados, mangues, pântanos e lagoas, que foram, aos poucos, sendo drenados e se transformando em área urbana, com ruas, praças e casas. 

Ah, só pra lembrar também. Até 1763 a capital do Brasil era Salvador, na Bahia. O Rio tinha relativamente pouca importância no cenário nacional. Mas a descoberta do ouro em Minas Gerais, ali por meados do século XVIII tornou os portos do Rio estratégicos para o escoamento dessa produção, e o Rio virou capital. De um vilarejo que tinha casinhas térreas, umas poucas lojas, armazéns, açougues, trapiches, cocheiras, senzalas, casas de banho, pardieiros e depósitos, a cidade virou alvo de um monte de melhorias, com a construção de aquedutos, fontes, novas ruas, prédios e espaços públicos como praças e parques. Mesmo assim, ainda era uma cidadezinha acanhada, com ruas estreitas e sinuosas, e um modesto casario colonial espremido ali na meiuca dos morros. A Lapa e os campos de Santana e Lampadosa (atual Praça Tiradentes), bem como os caminhos em direção a São Cristóvão estavam recentemente e ainda de forma tímida se incorporando ao tecido urbano, enquanto Catete e Botafogo constituíam arredores rurais. 

Um autor que eu gosto muito, chamado Maurício de Abreu, mostra que a população do Rio, até o século XIX, era formada em sua maioria por escravos, e alguns poucos funcionários públicos, comerciantes, religiosos e nobres. Todo mundo muvucado no mesmo espaço urbano limitado. Não tinha isso de bairro de rico e bairro de pobre. A elite local diferenciava-se do restante da população apenas pela aparência de suas casas, e não pela localização. Dois motivos ajudam a explicar isso: a necessidade de defesa contra invasões estrangeiras e a falta de meios de transporte coletivo que permitissem à população mais pobre se deslocar para outras áreas. Além disso, lembra que eu falei que tinha monte de manguezal, pântano e morro no meio do caminho? Então, era difícil expandir o território pra fora desses limites. 

Tem um mapinha aqui que mostra como era o Rio no início dos anos 1800. Só pra esclarecer, chamava-se “freguesia” a uma espécie de recorte simultaneamente eclesiástico e administrativo do território da cidade, que comporta o agrupamento de algumas áreas. Uma mistura de paróquia com bairro, se podemos dizer assim. 

Aí, Napoleão pressionando de um lado, Inglaterra de outro, veio a Corte pro Brasil. De cara, o príncipe regente, D.João, vendo aquele pardieiro que era a cidade, tratou de fazer os esforços necessários para dar ares mais europeus e “civilizados”, dignos da sede de uma monarquia. Afinal, os recém-chegados, habituados aos padrões sociais europeus, estavam chocados. Bom lembrar que chegaram naqueles navios cerca de 15000 pessoas, entre nobres, funcionários públicos e empregados diversos. Numa cidade de cerca de 50.000 habitantes, isso representava um acréscimo, do dia para a noite, de 30% do total de sua população.

Parênteses: a rainha de Portugal, de verdade, era d. Maria I, mas ela tinha sido afastada do trono desde 1799, por demência, e vivia enclausurada, por isso d. João reinava. Assim que chegou e nos anos seguintes, d. João criou órgãos públicos, fundou a Casa da Moeda e o Banco do Brasil, revogou a proibição de se instalarem indústrias no país e, paulatinamente, estimulou a produção artística, científica e cultural, culminando com o patrocínio da vinda da Missão Francesa capitaneada  por Joaquim LeBreton, e da qual fizeram parte, entre outros, os pintores Jean Baptiste Debret e Nicolas Taunay, e o arquiteto Granjean de Montigny. Entre otras cositas igualmente importantes, nem dá pra citar tudo aqui. 

Por outro lado, os habitantes locais viram um rei de verdade de perto pela primeira vez, e foram apresentados a uma série de cerimônias e hábitos novos, criando na cidade uma nova urbanidade. Vocês acham que os nobres portugueses vieram só com seus paninhos de bunda? Bom, quase isso, mas ainda assim, a nobreza portuguesa certamente se fez acompanhar de toda a riqueza que coube em seus navios, o que gerou um afluxo de bens que sacudiu a atividade econômica da modorrenta capital do Brasil. Era gente com gostos mais sofisticados (eu rio sempre com isso, mas enfim) e se imbuíram da nobre missão de imprimir os códigos monárquicos europeus numa sociedade tropical, marcada pela diversidade racial e por costumes provincianos. Tradução: eles achavam que estavam trazendo a civilização para esse bando de pretos, índios e outros primitivos que viviam barbaramente neste muquifo. Oba, chegou o progresso: Conselho Supremo Militar, Academia da Marinha, uma fábrica de pólvora, junto à Lagoa Rodrigo de Freitas, Escola de Medicina, Imprensa Régia (não podia ter jornal local antes, sabia?). Quer mais? D. João não era um boboca fraco, não. Fundou o Jardim Botânico, um observatório astronômico, estimulou a construção de teatros e bibliotecas – um governante que preza as Artes e a Ciência, vejam vocês. 

Pois bem, nem cheguei na tese principal deste texto ainda, vamos a ela. Eu disse ali atrás que vivia todo mundo misturado no espaço urbano entre os quatro morros, mas na verdade tinha uma tênue diferenciação social as freguesias urbanas.  Olha lá no mapinha pra facilitar: enquanto Candelária e São José eram freguesias ocupadas preferencialmente pelas classes dirigentes (burocratas e pequenos comerciantes), tanto para suas residências de cidade quanto para os negócios, as parcelas mais pobres da população habitavam Santa Rita e Santana, que deram origem aos atuais bairros portuários da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Uma questão crucial era a mobilidade. Na ausência de meios coletivos de transporte, os pobres precisam morar perto dos locais onde se encontram as oportunidades de trabalho. 

Mas os poucos nobres têm suas próprias carruagens e escravos, e construíam, às vezes, residências de campo nos bairros distantes do Flamengo, Laranjeiras e Botafogo, que constituíam freguesias rurais. Com a vinda da família real, essa ocupação se intensificou, pois todos queriam seguir os passos da rainha Carlota Joaquina. d. Carlota era uma princesa espanhola da casa dos Bourbon casada com d. João, e portanto, rainha de Portugal e do Brasil a partir da ascensão ao trono do príncipe regente. Ela tem uma importante participação neste deslocamento parcial da cidade rumo ao sul. Conta-se que odiava o Brasil e que, nos 13 anos em que aqui viveu, construiu uma reputação bastante reprovável para alguém de sua estirpe. Enquanto d. João se acomodou no Paço da Boa Vista, em São Cristóvão, a rainha se instalou num amplo casarão nos confins da Praia de Botafogo, lugar mais ventilado e discreto, onde ela podia receber seus muitos amantes, longe dos olhares da corte.

A mesma lógica – estar próximo ao poder – levou parte das classes mais altas a se deslocar na direção de São Cristóvão, assim que d. João lá se instalou, no palacete que ganhou de presente de um rico comerciante. A ocupação desta parte da cidade só era viável para quem dispusesse de meios de locomoção e depois do aterramento de um grande braço de água que entrava pelo meio da cidade (ali onde hoje é a avenida Francisco Bicalho). No rastro da mudança de residência da família real para a Quinta da Boa Vista, portanto, São Cristóvão viu multiplicarem-se as moradias ricas e palacetes, sendo em seguida incorporado à zona urbana da cidade. Logo o bairro foi foco dos investimentos em infra-estrutura, sendo o primeiro da cidade a ser atendido por um serviço de diligências públicas, ainda na década de 1830.

Assim, podemos admitir que a instalação da família real no Rio de Janeiro lançou as bases para uma expansão da malha urbana da cidade, socialmente diferenciada, que se projetou em três eixos principais:

1 – Oeste 

Para além do Campo de Santana, em direção a São Cristóvão, seguindo os passos do imperador d. João VI, que lá foi morar. Ocupação prioritariamente de moradores mais ricos, com poder de mobilidade, instalados em palacetes e casarões senhoriais, cuja construção foi também estimulada pela isenção de alguns impostos urbanos concedida a sobrados ali edificados com dois ou mais pavimentos.  

2 – Sul

Na região já existiam muitas fazendas, mas essa ocupação se intensificou bastante após a mudança da rainha para lá, fugindo do tumulto e apinhamento do Centro. As fazendas foram retalhadas em chácaras, inicialmente reservadas para as atividades de fim de semana, mas aos poucos transformadas em residência permanente de nobres e burgueses ricos. O adensamento populacional dessas áreas até então rurais é notável no período de 1821 a 1838, justificando o desmembramento e criação de novas freguesias, incorporadas ao perímetro urbano, e que dão origem à primeira etapa do surgimento da Zona Sul (Glória, Catete, Laranjeiras, Flamengo e Botafogo)

3 – Noroeste

A parte da população mais pobre, que não tinha meios próprios de locomoção, ao se ver expulsa do Centro da cidade, que deve abrigar os funcionários e membros da corte recém-chegada, se muda para os bairros e morros próximos, adensando as freguesias de Santa Rita e Santana. 

Segue outro mapinha, indicando esses vetores de expansão urbana. 

A despeito das inevitáveis e saudáveis divergências de percepção sobre esse movimento, que aparecem na bibliografia sobre o assunto, uns defendendo que a vinda da família real não operou nenhuma transformação significativa sobre a estrutura urbana da cidade, outros garantindo que a chegada da corte deslocou o eixo da vida administrativa da cidade e sim, mudou a fisionomia da cidade, vou mandar a real sobre o que eu penso.

De fato, não há um plano organizado, que caracterize um conjunto de iniciativas sistêmicas, mas é nítido o surgimento ou consolidação de vetores que indicam a direção e a qualificação da expansão urbana que se vai verificar nas décadas seguintes, incluindo aí a priorização das áreas merecedoras do aporte de investimentos públicos. Para Maurício de Abreu, o fator mobilidade é crucial para entender isso. Fato é que a cidade se expande em território e importância econômica, social e política, e isso não se dá de maneira aleatória. A expansão é diferenciada, e tem, nessa expulsão inicial de parte da população do Centro da cidade, e na movimentação da corte nos anos seguintes, um marco que merece ser mais bem considerado. 

Ana Paula Medeiros é arquiteta, urbanista e narradora do cotidiano.



Clássico do Coração – Maria Sibylla Merian

por Vera Guimarães

Por volta de 2004, inventei de ter aulas de ilustração botânica, uma expressão artística muitíssimo de meu agrado. As professoras que tive me deram a conhecer parte do universo dos grandes ilustradores e assim fiquei atenta a nomes.

Em 2008, em Amsterdam, sem que procurasse, entrei no Museu Casa de Rembrandt e estava acontecendo a exposição Maria Sibylla Merian & Filhas: Mulheres de Arte e Ciência. Em casa, procurei saber mais dela e meu queixo caiu e eu caí de amores por ela definitivamente. Espero aqui trazer a vocês todo meu espanto e encantamento com essa vida, arte, ciência, delicadeza e generosidade.

Maria Sibylla nasceu na Alemanha em família de artistas e editores. Com o pai e depois com o padrasto circulava pelo mundo das artes e das publicações.

Quando isso? Séculos XVII e XVIII.. De 1647 a 1717. Respirando. Longe, não?

Desde cedo se interessou pelo mundo natural e observava, coletava, registrava dados e pintava insetos e outros animais, plantas e tudo que a cercava na natureza.

Casou-se, teve duas filhas, divorciou-se e foi viver em Amsterdam, enorme centro comercial e artístico da época. Dava aulas e vendia suas aquarelas. Teve contato com material chegado do Novo Mundo via Cia. das Índias e se interessou pela natureza longínqua.

Espantem-se comigo! Aos cinquenta e dois anos, idade em que, àquela época, a pessoa já deveria ser considerada idosa, resolve partir em companhia da filha mais nova para a colônia holandesa no Caribe, o Suriname.

Com indígenas e africanos escravizados embrenhava-se na selva tropical em busca de exemplares da fauna e flora, que observava, pesquisava, registrava e transformava em desenhos.

Depois de dois anos contraiu malária e retornou à Europa, com vasto material para publicação.

Maria Sibylla só passou a ser conhecida em fins do século XX, um tanto por força do movimento feminista.

Em sua trajetória, alguns fatos e o caráter de seu trabalho a tornam maravilhosamente destacada.



GÊNERO: num ambiente totalmente dominado por homens, saiu do papel destinado às meninas/mulheres e fez algo além de ser esposa e mãe.

CURIOSIDADE INTELECTUAL: desde menina se interessou por desvendar o ciclo de vida dos insetos, não se conformando com a noção de geração espontânea, em vigor desde Aristóteles. Embora Lineu já houvesse descrito partes da metamorfose, foi ela a primeira a incluir a fase ovo, fechando o ciclo.

“AVENTURA”: no século XVII, lançou-se numa travessia oceânica e foi bater às portas de um mundo desconhecido, tropical, quente e úmido.

VER IN LOCO: cento e trinta anos antes de Darwin, cuja expedição científica revolucionou a ciência, Sibylla fez em silêncio a sua.

ESPÍRITO CIENTÍFICO: seus registros, não apenas cheios de beleza, são rigorosos.

ECOLOGIA: suas pesquisas e registros levam em consideração o meio em que os fenômenos ocorrem, não são soltos.

HUMANIDADE: inserida na comunidade de trabalhadores do Suriname, observava sua vida e valores. Na descrição de determinada planta, anotou que era abortiva e usada pelas mulheres escravizadas, que não desejavam que seus filhos tivessem o mesmo destino.

EDUCAÇÃO: quando junta arte e ciência, abre as portas para uma forma integrada de gerar conhecimento, pelo estímulo à observação e respeito à verdade factual.

NEGÓCIOS: voltando à Europa, ela mesma edita seus livros.

DELICADEZA: a descrição das plantas/insetos em suas pranchas revela pessoa sensível e delicada.

Querida Maria Sibylla Merian, você é meu CLÁSSICO DO CORAÇÃO.

Vera Guimarães, pacata e preguiçosa, vivendo a vida dos outros.



A decadência elegante de Lucia Berlin

por Tina Lopes



Hoje quero contar as histórias dos malditos, dos esquecidos, dos que não eram pra ser ou dos que eram e falharam miseravelmente. Então falo novamente r Tina Lopesde Lucia Berlin e sua pequena grande obra. Quem me conhece já me ouviu/leu recomendar O Manual da Faxineira, única coletânea lançada no Brasil, em 2017, e que reúne os principais entre os 76 contos que publicou em vida – Lucia nasceu e morreu em 12 de novembro.

(Conselho para a faxineira: Aceite tudo o que a sua patroa te der e diga obrigada. Você pode deixar o que não quiser no ônibus, na fenda entre o encosto e o assento do banco)

Entre o primeiro e o último foram 68 anos de extremos, da formação em boas escolas e vida de filha de executivo a alcóolatra com quatro filhos para criar, de três casamentos diferentes que a levaram para o mundo da arte, das drogas e da pobreza – e até a viver de faxina, como conta o título. Morou no Alasca, no Texas, no Chile, na Califórnia; volta e meia surge uma expressão em espanhol, e seus textos emanam calor e suor.

(Faxineira: Tenha como regra nunca trabalhar para amigos. Mais cedo ou mais tarde eles acabam ficando ressentidos porque você sabe coisas demais sobre eles. Ou deixa de gostar deles, pela mesma razão)

“Até onde me lembro, eu sempre causei péssima impressão”, constata uma de suas personagens. Impossível, pois Lucia Berlin era linda, uma Liz Taylor – principalmente no set de Quem Tem Medo de Virginia Woolf. Encarnava inteligência e beleza, dom e maldição. Dizem que ela tinha compaixão por seus personagens, pois não os julga quando relata suas pequenezas e tragédias. Dizem também que nem todos os contos são autobiográficos, se é que isso é possível. Porém, apesar de descrever situações, sentimentos e atos terríveis, Lucia Berlin nunca chega ao desespero.

(Faxineira: Você inevitavelmente vai trabalhar para muita mulher liberada. O primeiro passo é uma terapia de grupo; o segundo, uma faxineira; o terceiro, o divórcio)

Suas personagens sobrevivem aos abusos, aos traumas, às clínicas sujas de aborto, às lavanderias, aos parentes doidos, às patroas arrogantes, aos amantes canalhas, à pobreza, à vontade de nunca ter tido filhos. Mas não se trata de resignação nem a tal resiliência, longe disso. Lucia Berlin não tem lições a ensinar: ela observa, conta, vive: simplesmente, é.

Tina Lopes é jornalista e trabalha como mercenária (frila de conteúdo) e pode ser encontrada aquihttps://twitter.com/TinahLopes



Rádio Drops



O Drops informa que na vitrola do Rádio Drops, nesse momento, toca FADO TROPICAL de Chico Buarque e Ruy Guerra.

Para quem acessa pelo celular e não consegue clicar no Rádio Drops ali na lateral vamos deixar o link aqui porque acreditamos que vocês vão amar ouvir!



A primeira vez que fui à Europa e a cozinha de Monet

por Elaine Cuencas

Lendo assim um titulo desses, temos a impressão de que vamos ler um texto de uma moça de boa família que irá contar todas as suas aventuras de formação intelectual e de boas maneiras.

Mas, a primeira vez que fui à Europa, na realidade, estava me vingando do fim de um casamento, pensando nos anos de aposentadoria que viriam pela frente e de como iria sobreviver então, depois de gastar as economias na viagem. Pensava também que, finalmente, aquele sonho de visitar a Shakespeare & Cia, naquela ruazinha de Paris seria realizado.

Fui à França. Vi a Torre. Chorei na Notredame. Chorei em Chartes, porque vi a Senhora que Joseph Campbell descreve para Bill Moyers em O poder mito. E assim, todo o imaginário criado, desde menina, foi tomando forma na vida real.

Comilona, a viagem teve a receita ideal, com ingredientes incríveis! O macarron legítimo, a île flottante no café com todos aqueles espelhos, a baguete debaixo do braço, o café preto, no bairro dos cinemas, ao lado da fotografia de Yves Montand, a sopa de cebola no bairro boêmio, o crepe suzette! O século XIX da gastronomia de mentirinha, criado para alimentar nossos sonhos de turismo cultural.

Fomos passear em Giverny e o passeio foi uma das cerejas desse doce saborear os sonhos de menina.

O jardim, as flores, a ponte japonesa e aquele jardineiro caricatural que a casa mantém para alimentar a imaginação do turista, tudo isso e o céu azul foram perfeitos.

Na casa, percorremos os cômodos, tentando sentir presença do homem, da vida das pessoas, ouvir os sons daquele final de século XIX.

Até que entramos na cozinha… A alma da casa. Azul, cerâmica azul, toalha amarela, mesa posta, flores no vaso. Durante o devaneio, pensei em quantos cafés da manhã, almoços de família e jantares espetaculares saíram daquele fogão, foram àquela mesa ou à mesa de jantar.

Pude sentir os perfumes dos pratos suculentos, ouvir os talheres batendo na louça, o sorver dos sucos, água e vinhos. Uma delícia.

Algumas das minhas melhores memórias têm a ver com essa maravilha que é o ato de comer.

Um ano depois, ganho da filha um livro maravilhoso, À mesa, com Monet, texto de Claire Joyes; fotografias de Jean-Bernard Naudim e prefácio do chef Joel Robuchon, da editora Sextante. Uma beleza de publicação. Dessas que deixam a gente feliz como o diabo.

Que delícia, voltar a saborear as mesmas sensações que tive na casa em Giverny.

Penso em como as descrições da literatura do século XIX contribuíram para minha formação gastronômica e cultural. Em como o comer, solitário ou em grupo, à mesa do jantar ou na cozinha mal iluminada. Os chás na Paris de Swan ou no apartamento sujo na Petersburgo das personagens russas, a comida de rua da Itália dos romances que li. Os acepipes de Eça de Queirós que me levou um dia até Tormes a saborear as mesmas favas que Jacinto redescobriu.

Sem esses excertos literários, a casa em Giverny, a cozinha de Monet e o presente da filha não teriam o mesmo sabor.

Elaine Cuencas é professora e estudiosa da literatura brasileira.



Expediente:
Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Suzi Márcia Castelani
Colunistas: Patrícia Daltro, Vera Guimarães, Rita Paschoalin, Flávia Guimarães, Ana Cristina Rodrigues, Ana Paula Medeiros, Elaine Cuencas e Tina Lopes.

Ilustrações – Sany Alice que pode ser encontrada aqui: https://www.behance.net/sanyalice



E D I T O R I A L

Por onde chegamos a Minas Gerais

Minas – Matizes Dumont

Minas Gerais é um pedaço de chão. Minas Gerais é o começo de um país. Minas é uma pátria. Mais do que tudo, Minas é uma ideia, a ideia. A ideia de que há vida além do reino, da monocultura, da dominação. A ideia de que há vida subindo e descendo o morro e escavando o chão, procurando pedacinhos preciosos de metal, de ideais, de noções legais sobre o que forma uma nação, de trabalho, de mistura de água, de floresta, de literatura. Minas Gerais é o primeiro amor de todo mundo porque Minas Gerais é o nosso começo. Foi ali, longe do mar, longe de continentes outros, que aprendemos que poderíamos ser, que poderíamos fazer, que poderíamos criar. Em Minas temos céu demais, verde demais, problemas demais, possibilidades demais, letras demais. Faltam palavras para definir a vida, o que somos e o que desejamos, mas não em Minas. Em Minas, minam os desejos, as possibilidades de um léxico próprio, as chances de levar a cada um e a nós mesmos a tradução do que carregamos no peito. A tradução do que carregamos no peito. A tradução do que carregamos no peito.

As vozes se erguem, em Minas, mais altas. E melhores, e mais límpidas. O que Minas fez por nossa literatura, lugar nenhum jamais fará. Minas nos deu amores, muitos, o Drops em Revista espera ter tempo e fôlego para falar de cada um deles.

Começamos com os três que, para nós, falam mais de Minas e mais ao nosso coração: Adélia Prado, Guimarães Rosa e Fernando Sabino. Cada um a seu tempo e com sua peculiar forma de se expressar, são eles que primeiro nos trazem Minas, em cada curva da estrada, em cada córrego ou estrofe, em cada ideia inconfidente, por vales e montanhas e sim, a cada pôr do sol.

Você é muito bem-vindo, bem-vinda à nova edição do  Drops em Revista. Receba nosso melhor abraço.

As Editoras

O Rosa

por Patrícia Daltro

Trago hoje um reconto. Em prosa meio corrida, é a saga de um menino, que os homens deram por nome João Guimarães Rosa. Veio de trasdosmontes, de terra Codisburgo. Homem amante das línguas. Da escrita e da falada. Sabia mais que dez. E mesmo assim, não contente, trazia dentro de si, a falta dessa palavra.

Boquiaberte-se não, seu moço. Que lá o que falo tem raiz funda. Se digo que seu Rosa era um homem a quem faltavam palavras, não é falastrice da minha parte.

A prosa do seu Rosa não se cabia no abecedário que a gente aprende na escola. Ela é viva. Se apequena e agiganta naquilo que queria ser dito. É bicho rastejante no terreno áspero do nosso falar, ao mesmo tempo verdeja e explode sanhuda no nosso ouvir.

Ela é maior que eu, que vosmecê, maior até do que ele. Faz parte da história contada, não como parte daquilo, mas como se aquilo fosse.

Quem diria que um menino iria crescer um tanto. Destamanho que não se cabe nem dentro desse mundo enorme. Começou guri curioso, virou moço bem letrado, foi doutor e diplomata. Diz que levou o sertão pro mundo.

Mas.

Engana quem acha que o Sertão tava dentro dele. O Sertão está em toda parte. Disse, e redisse tantas vezes. E na querência de explicar o sentir sentido das emoções que nos faz esse bicho esquisito e a amplitude dessas veredas, ia lá no barro vermelho e era um tal de molha, aperta, estica, molda e esculpe tudo que queria dito.

Perceba que não é taramelagem da minha parte. Se faltavam dizeres, seu Rosa as modelavam. O escrito era reescrito e desescrito, de modo que luzluzissem e clareassem sua prosa.

O homem e o sertão são um só, circuntristes dentro de sua amplitude. Quase qual o sertanejo que se acanoa e segue rio acima e rio abaixo. Presente e à margem de si mesmo. A prosa de seu Rosa transformava o falado em personagem.

Mas, me perco de mim mesmo. É um tanto de dizer que nada digo. Entenda.

O rio que corre em mim é o mesmo sangue que esbombardeia a obra de Guimarães. Tem lá qual sua nascente, sinesguia-se pelas beiras, ora minguado, ora transbordante. Num fluxo desarrazoado, e no entanto, perene.

Também sou personagem dentre as sagas que ele conta. E quando aqui me aboletei, pedindo um naco de carne e um tique de bebida, danei a falar um tanto. É que esse homem me assombra, tenho cá os meus motivos. Já disse sou cria dele. E mais nem posso falar. É segredo inconfessável. Fui sinônimo de amor. Puro, forte, intenso e aflito. Amor que é. Neblina. De novo me labirinto. Perdoa em mim a safirentice que volto ao ponto do nó.  

    Glossário –  Guimarães Rosa:

Circuntristeza – Como a própria palavra sugere, refere-se à “tristeza circundante”. Ficou para o final por ser o meu neologismo favorito.

Luzluzir –  fazer reluzir

Safirento –  agitado, excitado, assanhado. Safirentice – ato ou efeito de agitar-se.

Sanhudo – furioso, insaciável

Taramelagem – tagaralice, falatório

Glossário – Patricia:

Sinesguia – algo sinuoso e esguio (neologismo)

Glossário

Esbombardear –  ato ou efeito de bombear.

Patricia Daltro é artesã e escritora. Ela pode ser encontrada aqui: http://avidasemmanual.blogspot.com/

Sabino no espelho

por Tatiana Yazbeck

Fernando Sabino

Foi em um domingo à tarde, um domingo gripado, frio e enjoado, que recebi um honroso, porém difícil convite. Escrever sobre Fernando Sabino. Sabino e sua mineirice, Sabino e seus livros e contos. Sabino, o menino no espelho.


Imediatamente lembranças surgiram. Foi como um brainstorming involuntário. Eu, ainda adolescente, me deparei com O menino no espelho, na estante de casa, e comecei a ler.

Eu devia ter uns onze anos. Lembro que me senti tão adulta, por ler um livro com poucas gravuras – ou nenhuma, não lembro ao certo – e entender exatamente o que o autor queria dizer! Mais do isso, eu conseguia me emocionar! Houve uma identificação imediata com aquelas histórias.


Eu era criança de brincar no quintal, de viver com os joelhos ralados, de comer galinha ao molho pardo feito pela minha avó, com a galinha morta pelas mãos da mesma (com o perdão dos protetores de animais!). Um pouco da minha infância estava naquele livro e eu fiquei meio pasma com aquilo!

Lembro também que, em seguida, li O encontro marcado. Ou teria sido o contrário? Sei dizer, com certeza, que os dois exemplares ficaram com vários grifos a lápis, destacando as frases que me marcaram.


Infelizmente, em umas das mudanças, os livros de Fernando Sabino se perderam, juntos com os de Drummond. Mas bastou um pedido para escrever sobre ele, que toda a memória afetiva aflorou.


Quase que no mesmo momento, em que todas as lembranças vinham à tona, recordei-me de que Sabino havia sido um dos grandes incentivadores de meu tio, o jornalista Ivanir Yazbeck, no início de sua carreira, como escritor de livros infanto-juvenis.


Num pulo, toquei o telefone pro meu tio, que imediatamente se dispôs a falar e assim o fez, com carinho, empolgação e saudade, de suas lembranças com o mineiro Fernando.


Meu tio costumava encontrar Sabino em reuniões de amigos em comum. Conversavam amenidades, Sabino sempre simpático, feliz por conversar com um conterrâneo. Apesar de meu tio ser de Juiz de Fora e Sabino ter nascido em Belo Horizonte, cidades que possuem uma rixa histórica – Juiz de Fora é mais próxima do Rio e os belo-horizontinos costumam nos
chamar de mineiros da gema ou cariocas do brejo – mineiros, quando fora do estado, acabam sempre se aproximando, como se assim ficassem mais perto de casa.


Ambos também trabalharam no extinto Jornal do Brasil e Ivanir teve a oportunidade de diagramar crônicas que Sabino escrevia para o Caderno B do jornal.


Em um desses encontros, já com o primeiro livro lançado O enigma do pássaro de pedra, Ivanir se encheu de coragem e contou a Sabino que estava escrevendo um novo livro. Dessa vez um suspense. Sabino perguntou o nome e diante da resposta, pediu que Ivanir contasse em linhas gerais a história de A noite em que Jane Russel morreu.

e
“Com uma gentileza da qual jamais me esquecerei, ele ouviu meu relato, expressando aprovação, e me orientou a enviar o original à editora Record. Ele se encarregaria de recomendar à pessoa responsável pelo recebimento que o lesse com atenção.” Além disso, ao saber que Ivanir estava usando o nome Ivan para assinar seus livros, aprovou a escolha, segundo ele, pela sonoridade.
Ivanir seguiu as instruções do mestre e, uma semana depois, recebeu cópias de um contrato de publicação a ser preenchido e devolvido o mais rápido possível. Quatro meses depois, A noite em que Jane Russell morreu, era lançado, com as bênçãos de Fernando Sabino.


Fernando Sabino morreu em outubro de 2004, deixando um legado enorme para os que viveram no seu tempo e para os que ainda virão. Não se vive completamente sem ler uma de suas obras.

Não se pode viver sem saber de Sabino.

Tatiana Yazbeck é psicóloga e jornalista. Gosta de falar e escrever. E, apesar dos pesares, continua gostando muito de gente! 

Declaração

por Sandra Spíndola

Adélia Prado

Sou muitas. A que mais gosto de ser é Adélia.

Andar “feito cavalo velho, procurando grota”; enlanguescer quando Jonathan se aproxima; abrir e fechar janelas, oscilando entre doida e santa e ver todos os moços, sempre, sempre, “entre moitas de murici”.

Quando sou Adélia o mundo me surpreende mais.  Penso coisas fora do meu comum. Outro dia mesmo encontrei pessoas que gostam de andar de montanha russa. Ai, é tão bom, elas diziam. É voo. Dá frio no estômago, o coração dispara e salta pra boca. A respiração perde o ritmo. É o susto, o corpo descontrolado…

E eu, “requintada e esquisita como uma dama” lembro da arvorinha da Adélia. Aquela que parece estar conversando pois a insetaria nela, em festa, “Tem zoado de todo jeito: tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.” E então penso: Amo e odeio. Preciso lá de montanha russa… É Adélia sentida por mim.

Se eu me aprimoro sendo Adélia, fico faminta. Sabe o prazer que pensa ser a mim interditado? Pois vou com garras, presas e volúpia. Saboreio. Essa moça lá de Minas me faz sair falando feito quem reza: “Ave, ávido. Ave, fome incansável e boca enorme, come.” Sou bicho voraz. Não conheço parcimônia. Quero tudo e no exagero. Tal qual ela, almejo mesmo todos os riscos “sem o perigo da morte” e uma única garantia: a de que “à noite estaremos juntos, a camisa no portal.”

 Quando sou Adélia ainda sou outra: a Agradecida.

Se escrevesse um bilhete pra ela seria assim:

Obrigada, Adélia

Fiz aquela sua receita de cataplasma de amor macerado no pilão com “cinza e grão de roxo”. Deu certo. Compartilhei com todo mundo.

Olha. Queria te pedir uma coisa. Sabe quando você bate “o osso no prato pra chamar o cachorro”? Sou eu quem atende. Jogue os restos pra mim.

E guarde um segredo, por favor: aqui também tem uns moços que esgravatam “meu coração de cadela”.

Ando triste, Adélia. Lembro. Você afirmou: Jesus “Brasileiro não é.” Desconfio agora de algo mais sério: Ele também nos abandonou. Apelo pra Mãe e ao final de cada telejornal, contrita, rezo aquela jaculatória, quando em momento de muita precisão por amor desatinado, você me ensinou:  Ó Virgem, volte à minha alma a alegria, também eu estendo a mão a esta esmola.”

Sem mais, espevito as palavras bem e desejo:

Seja sempre Maio pra você levantar “voo rua acima”.

E, Adélia, resisto à despedida e desejo mais ainda:

Que você encontre “um caminho de areia margeado de boninas, onde só cabem a bicicleta e seu dono.”

Que volte a morar numa casa “constantemente amanhecendo”;

Que Jonathan por fim cresça, e você não precise mudar para “alguém mais ladino.”

Desculpe as mal traçadas linhas.

Te amo

Sandra Spindola é retuitera aplicada. No deboche pode ser Sandroca mesmo.